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Perfumes

A nota que está em quase todo perfume masculino e você nunca percebe

04 set 2026 3 min de leitura

Pergunte a alguém se gosta de perfume de lavanda e a resposta costuma ser
não. A palavra carrega uma imagem: sachê de gaveta, sabonete antigo, água de
colônia do avô.

Agora olhe a ficha dos três perfumes abaixo. Todos têm lavanda. Nenhum deles
cheira ao que você acabou de imaginar.

A mesma nota, três disfarces

Wanted by Night
tem lavanda na abertura, junto da canela. Ninguém percebe, porque a canela e o
tabaco da base gritam mais alto. A lavanda ali é estrutura, não protagonista.

Stronger
With You Absolutely
tem lavanda no coração, embaixo de rum e
baunilha de Madagascar. É provavelmente o último perfume que alguém descreveria
como “de lavanda”, e ela está lá segurando o doce por baixo.

Invictus
Platinum
tem lavanda no coração com menta. Aqui ela aparece mais,
porque não há doçura para escondê-la — e mesmo assim a leitura é “fresco herbal”,
não “lavanda”.

Por que ela está em tudo

Lavanda faz uma coisa que quase nenhuma outra matéria faz tão bem:
ela é ao mesmo tempo fresca e quente. Tem um lado herbal
canforado que refresca e um lado levemente doce e amanteigado que aquece.

Isso a torna uma ponte perfeita. Ela liga uma abertura cítrica a uma base
doce sem que exista um degrau entre as duas — e sem ela, muitos perfumes doces
soariam como sobremesa pura, sem estrutura.

É por isso que a indústria a usa há mais de um século e não parou.

O nome disso é fougère

A combinação de lavanda com fundo amadeirado e doce tem nome:
fougère. Foi criada em 1882 e é, até hoje, a família a que
pertence a maior parte da perfumaria masculina ocidental.

Fougère significa “samambaia” em francês, e a ironia é que samambaia não tem
cheiro. O nome descreve uma ideia — verde, fresca, imaginária — não um
ingrediente.

Quando você acha que dois masculinos “cheiram parecido”, há uma boa chance de
os dois serem fougères com roupagens diferentes: um com baunilha por cima, outro
com couro, outro com fruta.

Onde ela aparece sem disfarce

Vale conhecer os casos em que a lavanda é a protagonista assumida, porque
mudam a percepção de quem acha que não gosta dela.

O Le Male Le
Parfum
coloca lavanda com íris e baunilha densa, sem nenhum frescor por
cima — o resultado é quente e nada tem de sabonete.

Já o Égoïste Platinum, de
1993, usa lavanda com alecrim e gálbano e vai para o extremo oposto: verde,
metálico e frio.

Mesma matéria, dois perfumes que não se parecem em nada.

O que fazer com essa informação

Pare de descartar perfume pela nota. “Tem lavanda” diz tão
pouco quanto “tem madeira”. O que importa é o que está em volta.

Se você acha que não gosta de lavanda, é provável que já
esteja usando três perfumes que a contêm. O que você não gosta é de um estilo
antigo de usá-la, não da matéria.

Se quer fugir de fougère de verdade, procure famílias que não
a usam: os cítricos puros, os amadeirados secos, os gourmand sem estrutura
aromática. Aí sim você vai sentir a diferença.