Boa parte dos perfumes masculinos que você encontra na perfumaria não vem de
uma casa de perfume. Vem de uma marca de sapato, de bolsa ou de roupa que
licenciou o próprio nome para um grupo especializado fabricar e distribuir a
fragrância.
Isso não torna o perfume pior. Mas cria um problema específico, e dá para
ver como cada marca resolve.
O problema: o perfume precisa parecer com a marca
Uma casa de perfumaria tradicional pode lançar o que quiser — o produto
responde só por si mesmo. Uma grife de moda, não: o perfume precisa fazer
sentido para quem já compra os sapatos, precisa caber na estética da vitrine e
não pode contradizer a imagem construída em outra categoria.
O resultado costuma ser fragrâncias mais seguras. E também, às vezes,
soluções criativas que uma casa de perfume não teria motivo para tentar.
A britânica que apostou numa fruta improvável
Jimmy Choo Man
tinha um desafio extra: a marca era conhecida por sapatos femininos de salto.
O primeiro masculino precisava soar masculino sem romper com a identidade da
casa.
A saída foi o melão — uma nota suculenta, quase feminina em outros
contextos, ancorada em lavanda e camurça. Deu certo justamente por não tentar
provar nada com madeiras pesadas.
A italiana que partiu de uma sobremesa
Uomo Salvatore
Ferragamo nasceu de um briefing improvável: traduzir tiramisù em
perfume. Poderia ter virado um gourmand enjoativo.
Virou o contrário. Cardamomo, tonka e madeira cashmere sugerem a ideia de
sobremesa sem nunca chegar lá — um perfume que dá para usar em reunião. É a
prova de que um conceito de marketing bem executado não atrapalha o produto.
A italiana que preferiu não chamar atenção
Trussardi Riflesso
seguiu a rota mais discreta das três. Maçã verde na abertura, couro na base,
nada que provoque reação forte.
É perfumaria bem-feita e sem ambição de virar assunto. No Brasil, onde a
marca é pouco conhecida, isso se traduz em preço mais acessível do que a
qualidade sugere.
Como avaliar um perfume de grife
Ignore o nome na caixa e cheire o produto. Marca de moda famosa não garante
fragrância boa, e marca de moda pouco conhecida não indica o contrário — o
Riflesso é exemplo disso.
O que costuma valer a pena observar é se a fragrância tem alguma decisão
própria, como o melão do Jimmy Choo, ou se é apenas uma composição genérica com
um logo caro na frente. A segunda categoria existe em quantidade, e é ela que
some do catálogo em dois anos.