Perfumes

Três perfumes que inventaram categorias inteiras

22 set 2026 3 min de leitura

Famílias olfativas — oriental, fougère, chipre, gourmand — são apresentadas
como se sempre tivessem existido, categorias naturais para organizar o que já
estava lá.

Não é assim. Cada uma começou com um perfume específico que fez algo que
ninguém tinha feito, deu certo, e foi copiado até virar categoria.

Três deles formam uma linhagem direta que explica por que tanta coisa hoje
é doce.

1925: alguém colocou baunilha demais

Shalimar nasceu de
uma decisão que na época era técnica e ousada: usar etilvanilina, um material
sintético muito mais potente que a baunilha natural, em quantidade generosa
sobre uma base cítrica.

O resultado foi o primeiro âmbar da perfumaria — o que hoje se chama de
oriental. Antes dele, perfume doce nessa escala simplesmente não existia como
categoria.

A estrutura que ele criou (cítrico luminoso em cima, baunilha e resina
embaixo) foi repetida por cem anos.

1965: a mesma ideia atravessa para o lado masculino

Quarenta anos depois, a mesma casa fez a versão masculina.
Habit Rouge pegou a
arquitetura do Shalimar — cítricos abundantes sobre baunilha e âmbar — e
acrescentou couro para deixar o conjunto mais seco.

Dentro da própria Guerlain ele é descrito como “o Shalimar dos homens”, e
isso é literal. Foi o primeiro âmbar masculino, numa época em que o território
masculino era de fougères e chipres secos.

A transgressão aqui não foi técnica, foi social: colocar doçura assumida num
produto vendido para homens.

1996: a doçura vai até o fim

O passo seguinte demorou mais três décadas.
A*Men pegou o caminho aberto
pelo Habit Rouge e foi muito além: caramelo, mel, leite e café, sobre um
patchouli escuro que várias pessoas descrevem como asfalto.

Deixou de ser um oriental com doçura e virou outra coisa — comida. É o
primeiro gourmand masculino de uma marca grande, seguindo o Angel feminino de
1992 da mesma casa.

Por que isso importa hoje

Olhe a prateleira de qualquer perfumaria agora. A maior parte dos
lançamentos masculinos de sucesso da última década tem baunilha, tonka, âmbar
ou algum acorde comestível na base.

Esse gosto não caiu do céu. Ele é o resultado de uma linha que começa em
1925 com uma decisão de laboratório, atravessa 1965 com uma decisão de
mercado, e chega em 1996 levando a ideia ao extremo.

Cheirar os três em sequência

Se você tiver a chance, vale cheirar os três na ordem cronológica. Fica
evidente que são parentes: a mesma estrutura básica aparece nos três, cada vez
com mais açúcar e menos formalidade.

É uma aula de história da perfumaria que não precisa de livro nenhum —
só de três fitas de papel.